segunda-feira, 9 de março de 2009

Pedro Bial versus Daddy




Aqui em casa a TV está constantemente ligada. Não é minha culpa, posso jurar.

Resultado apenas de uma irmã pré-adolescente normal, com a imaginação severamente atacada por aquilo que - segundo um pregador protestante no trem - é a máquina do diabo. Até hoje me pego a refletir sobre tal afirmação, tentando descobrir se o tal senhor tirou a conclusão a respeito da maleficência da TV a partir daquelas antenas antigas que eram postas em cima das mesmas, que mais pareciam chifres.

Mas o fato é que, sendo máquina de quem seja, ela está sempre ligada, bem aqui às minhas costas. Comerciais, novelas, jornais, programas apelativos, comédias forçadas. Sempre presentes, assim como os telespectadores.

Então no horário da janta vamos todos sentar-nos à mesa da cozinha, e não é muito raro que meu pai ensaie um discurso inflamado falando a respeito da desunião sofrida pelas famílias por causa da TV, e que minha irmã deveria ler um livro ao invés de ter a imaginação lapidada.

Assumimos todos nossas expressões mais vanguardistas e nos pomos a falar mal da TV também. Falamos a respeito da influência maléfica da opinião pública, da falta de cultura e reflexão, do pensamento capitalista de que 'tempo é dinheiro'. Muito bom.

Porém, a TV continuara ligada. E os passos de todos são atraídos até a mesma. Minha irmã cala, minha mãe dorme e meu pai se posta à frente da mesma. Mão no queixo, expressão fechada e amargurada.

Ao invés da voz de Pedro Bial eu escuto os resmungos do senhor de 61 anos, que vão desde a má qualidade do Reality Show até o grau de piranhagem das mulheres envolvidas no programa.

Eu sempre fiquei me perguntando do porquê de tudo isso. Pra que manter o aparelho de TV ligado e - pior que isso! - assistir a tudo que passa, se alega achar tão ruim e prejudicial, se reclama e xinga durante todo o tempo?

Antes eu achava que era hipocrisia. Mas hoje, bem. Hoje eu entendi completamente.

Nenhum daqueles que protagonizam os programas que são constantes alvos dos xingamentos de meu pai escutam sequer uma palavra do que ele diga - e então eu poderia julgar tudo o que ele diz muito inútil. Mas não, não é. Meu pai sabe que não escutam. Mas ele precisa apenas de alguém para olhar e dizer com toda a sua certeza "eu realmente odeio tudo isso".

A necessidade do ódio é algo que soa estranho a mim, mas já percebi em diversas pessoas. Ao invés de me deixarem apenas em paz, as pessoas se ocupam DE VERDADE em se manter perto de mim, mesmo que me detestem.

Eu nem as ouço. Eu nem leio o que escrevem. E, quando por um acaso sei sobre algo dito, acho uma sincera graça. Mas elas não desistem.

Uma vez alguém me disse algo como "Eu não sei pra que nós ainda nos temos adicionadas. Ela não conversa comigo e nem eu com ela."

E então eu acho que respondi "Não sabe pra quê? É pra que quando vocês acessarem, terem a oportunidade de ver uma à outra online e pensar consigo mesmas 'Eu realmente não suporto essa garota'."

E é exatamente assim que percebi acontecer com algumas pessoas. O que talvez as frustre é que, se eu pudesse, defenestraria minha tv.
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Um comentário:

  1. Outro dia estava pensando sobre a mesma coisa e não cheguei a conclusão alguma. Obrigada por me dar a resposta.
    E, quanto a citação dessa pessoa aí no final... Sem comentários u.u

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Nem lê.