sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Por trás da neblina.

Estação de trem.
Meus pés já não sabiam por onde andavam. O chão úmido pela recente chuva não leva-me a lugar algum, absolutamente. Talvez porque minha mente, e eu mesma, na verdade, estivéssemos bem longe dali.
No horizonte bem próximo, por trás das montanhas que a neblina insistia em ocultar naquela espécie de cortina de dia chuvoso, haviam tantas casas. Casas que, olhando daquele jeito, por trás da quase fumaça, pareciam todas iguais. Tão iguais quanto as pessoas que provavelmente nelas habitavam, ao olhar dos governantes. Somos todos números.
E, de repente, enquanto eu descia a rampa da estação de trem, me apercebi de que todas aquelas pessoas, e suas casas, e suas misérias, tudo aquilo estava bem próximo a mim, a poucos metros do mesmo chão molhado em que eu pisava. Chão esse que sempre insisti encarar enquanto andava, talvez para não ver o que acontecia à minha frente.
Para não ver a boca-de-fumo que ocorria exatamente dentro da estação, para não ver a fábrica bem ali do lado de fora, explorando funcionários, para não ouvir a música calma que tocava ao fundo, como que amenizando toda aquela realidade que impunham a quem por ali passasse.
A mim, às crianças que brincavam descalças em volta dos pais, às crianças que tinham em sua expressão um sofrimento quase adulto. Aos homens sem rostos que vendiam tóxico bem ali, embaixo da rampa que eu descia, aos meninos que ficavam vigiando para alertar sobre a chegada da polícia. Ao asfalto e ao cimento daquele lugar, regados a suor e sangue. Diariamente.

Naquele dia, a neblina escondia tudo isso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Nem lê.