Uma vez eu falei um pouco sobre minha vida e me mandaram que escrevesse um livro. Não porque tenha algo de especial nela, fato. É tão pobre de emoções ou entretenimento, coitada! Minha vida não é daquelas em que acontecem fortes emoções, grandes mistérios ou lindas histórias de amor, como aquelas que você lê e sente vontade de sair na rua e apaixonar-se.
É apenas uma vida. Uma vida em que há um vizinho chamado Pelé, e que tem um dos olhos maior que o outro. Quando ele ronca, a gente escuta lá em casa. Sabemos até quando o pessoal, na casa do Pelé, dá descarga. São deveras barulhentos, mas uns amores. A esposa dele, Deth, sempre que faz bolo nos manda uns pedaços. São uma gente da risada gostosa e fácil.
Uma vida, também, que tem como outra vizinha uma senhora chamada Margarida, e que gosta de ouvir música gospel pela manhã, e pontos de umbanda de tarde. Margarida que é tão singela a ponto de xingar as crianças que pulam no seu quintal para roubar mangas, Margarida que flerta com meu pai num sorriso sem dentes, Margarida que canta Roberto Carlos enquanto lava roupas.
O meu lugar é um lugar em que se podem ver porcos e seus filhotes andando pelo asfalto, e cabritos comendo as plantas pelas calçadas. O meu lugar é um lugar em que se pode ter como vizinho um senhor chamado Chicão, que costumava puxar os cabelos das criancinhas. Inclusive o meu, quando eu era uma. Chato é que ele morreu (aposto como as crianças comemoraram mesmo que numa pesada consciência).
Lá é um lugar onde se pode colocar uma cadeira na porta de casa, numa noite quente, e observar os transeuntes. Onde se pode aproveitar um poste com a lâmpada queimada, na rua, e contemplar as estrelas no céu. Onde, quando falta luz, as pessoas vão para as ruas de pijamas para conversar - É claro que saem todos correndo de volta para casa quandoa luz volta, escondendo cada um sua samba-canção.
É um lugar onde as pessoas têm de andar de trem para ir ao Centro da Cidade, onde as casas de construção entregam areia através de carroças e seus cavalos. Pra quê comprar caminhões?
Onde há mais quebra-molas que asfalto, onde os carros têm de tomar cuidado para não atropelar crianças e cachorros nas ruas.
Onde o povo vota em Jorge Babu porque ele promove bailes funk no carnaval, onde o comércio local coloca nomes estrangeiros em seus estabelecimentos apenas porque acha chic.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
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